Perspectivas · 01
Os primeiros noventa dias.
Quando um presidente do conselho externo entra num conselho, os primeiros noventa dias definem o tom de tudo o que se segue. A maioria dos presidentes sabe-o em princípio. Poucos o protegem na prática. A tentação é mostrar autoridade cedo, tomar uma decisão visível, sinalizar que algo mudou. A disciplina é fazer o contrário.
Os primeiros trinta dias são para ouvir. Não para inquéritos, não para entrevistas, não para o briefing formal que a empresa prepara para os novos presidentes. Para a escuta normal: andar pelo escritório, comer com a equipa, assistir a reuniões operacionais sem falar, ler as actas antigas do conselho do início ao fim. O presidente que salta esta fase está a tomar decisões no segundo mês com os pressupostos do primeiro mês, e esses pressupostos costumam estar errados.
Os segundos trinta dias são para perguntas. Perguntas concretas, feitas a pessoas concretas, registadas. As perguntas não são as óbvias que se espera que um presidente faça. São as perguntas que o presidente anterior nunca fez, ou fez mas não levou avante. O padrão das respostas é o diagnóstico. Ao dia sessenta, o presidente deve conseguir escrever o problema real da empresa numa única página.
Os terceiros trinta dias são para nomear. Ainda não para resolver. Para pôr a verdade em cima da mesa, perante as pessoas certas, na ordem certa, com a preparação certa. O presidente que salta para a resolução nos primeiros noventa dias perde duas coisas: credibilidade junto das pessoas que já conheciam a verdade, e tempo para desenhar uma solução que se aguente.
Depois dos primeiros noventa dias, começa o trabalho. Mas os primeiros noventa dias são o trabalho. Definem quem é o presidente, o que vê, e o que ganha o direito de mudar.
A maioria dos presidentes que observei encurtam os primeiros noventa dias para metade. Tomam uma decisão definidora na semana seis. Por vezes resulta. Mais frequentemente, é seguida, dois anos depois, por uma reversão mais discreta que ninguém comenta.
Os noventa dias não são um atraso. São um investimento em estar certo.
Carlos Magalhães