Perspectivas · 01

Sobre escutar, antes de aconselhar.

Por Carlos Magalhães · Setembro 2005 · 2 min de leitura

Um jovem consultor chega com modelos. Leu os livros, aprendeu os esquemas, preparou as análises. Espera-se que acrescente valor já na primeira reunião. O caminho mais rápido para corresponder a essa expectativa é recomendar. O caminho mais rápido é também o mais seguro para recomendar a coisa errada.

Aprendi isto com um fundador em Lisboa em 2004. Tinha-me contratado para validar uma reestruturação que já havia decidido. Durante três semanas não escrevi qualquer recomendação. Assisti a todas as reuniões operacionais, li todos os contratos dos cinco anos anteriores e fiz uma única pergunta a cada membro da equipa de liderança: para que tinha sido esta empresa verdadeiramente construída. As respostas não foram as que o fundador esperava.

O entregável, no fim, foram três páginas. A conclusão era simples: a reestruturação tal como proposta iria separar a empresa do seu propósito real; uma reestruturação mais estreita e mais simples não. O fundador aceitou-a. Dois anos mais tarde, a empresa tinha crescido e a equipa de liderança continuava unida.

O que aprendi naqueles primeiros anos não foi um modelo. Foi uma disciplina. A disciplina de reter a recomendação óbvia até que a não óbvia se torne disponível. De permitir que a empresa nos diga o que é, em vez de lhe impor aquilo em que se deve tornar.

Vinte anos depois, a prática continua. Os modelos cresceram. A disciplina não mudou.

O aconselhamento começa onde a escuta termina.

Carlos Magalhães

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